CONTEXTO GEOMINEIRO

«O território continental português possui uma complexa realidade geológica que está na base de uma diversificada disponibilidade de recursos minerais. Quase duzentas antigas minas, distribuídas por todo o país, são conhecidas. Quer no território continental, quer na sua ZEE, Portugal continua a ter elevado potencial mineiro para metais como o cobre, zinco, chumbo, volfrâmio, estanho, ouro, prata, urânio, lítio, ferro, manganês, crómio, níquel, platina, antimónio, tântalo e nióbio. Paralelamente, Portugal é também um grande produtor mundial de rochas ornamentais, principalmente de mármores provenientes da região de Estremoz–Borba–Vila Viçosa, de calcários do Maciço Calcário Estremenho e de granitos, provenientes, sobretudo, da região norte do país, como Vila Real, Braga, Monção e Viseu. O país produz igualmente praticamente tudo o que consome de rochas e minerais industriais, com destaque para os agregados para construção civil e obras públicas (calcários, basaltos, areias e cascalhos), as argilas comuns (telha e tijolo) e as argilas especiais, o quartzo e o feldspato (cerâmica branca: pavimentos e revestimentos, louças, sanitários).

Os primeiros vestígios seguros de mineração em território português remontam ao primeiro milénio antes de Cristo: Tartéssios, Fenícios, Cartagineses, Romanos e, evidentemente, os povos da Península, todos se empenharam activamente na exploração dos ricos recursos minerais aqui existentes, em particular do cobre, estanho, prata e ouro.(...)», RELVAS, JORGE, "Portugal Mineral", Centro Ciência Viva do Lousal, s. data (link)


TÉCNICAS DE MINERAÇÃO

«As técnicas de mineração divergem bastante na Antiguidade, conforme o tipo de minério a explorar ou a morfologia e geologia do terreno, podendo ir desde o simples garimpo nas margens de cursos de água ou a exploração por galerias até à elaborada técnica da ruina montium praticada, por exemplo, nas minas de ouro do noroeste.

Nas explorações através de poços e galerias, que é o que nos interessa por ter sido a técnica utilizada pelos Romanos em Aljustrel, há necessidade de se proceder ao escoamento das águas que se infiltram ou que nascem nos poços que vão sendo abertos, já que muitos deles vão a cotas que se situam abaixo dos níveis freáticos. Para proceder a esse escoamento os romanos utilizaram diversas técnicas. 

Diodoro (V, 36-38) (Apud, Luzón, 1970) refere o "caracol egípcio", hoje conhecido por "Parafuso de Arquimedes" e que consistia numa hélice helicoidal de grande comprimento, rodando em sistema de sem-fim, podendo proceder-se à associação de vários parafusos (Fig. 3). Nesta associação, o parafuso que mergulhava na água, elevava-a para um recipiente colocado no extremo oposto, onde mergulhava outro parafuso e assim sucessivamente. Mecanismos deste tipo foram encontrados em Espanha nas minas de Sta. Bárbara (Posadas) e Sotiel Coronada (Huelva).

Outro sistema utilizado, frequente nas minas da faixa piritosa do sudoeste, foi a Nora, que podia funcionar aos pares e em associação com outras noras (Fig. 4). Eram feitas em madeira com o seu eixo e muitos dos baldes em bronze. O esquema de funcionamento é semelhante ao das noras usadas na agricultura. Foram encontrados doze pares na mina de Tharsis (Espanha), quarenta em Rio Tinto (Espanha) e nove em S. Domingos (Mértola). 

Um outro aparelho também utilizado, embora mais raro, foi a "Bomba Aspirante-premente". Este tipo de bomba foi exaustivamente descrita por Vitrúvio (X-7), tendo sido encontrada uma na mina de Sotiel Coronada (Espanha) e, provavelmente, outra em Aljustrel. Parte desta bomba encontra-se em depósito no M.N.A., não estando, no entanto, confirmada a sua proveniência.

Nas minas onde não era possível instalar qualquer destes tipos de aparelhos, efectuava-se o escoamento através de baldes, elevados à força de braços ou com o auxilio de sarilhos, sistema que era também utilizado para elevar o minério recolhido. Os recipientes tanto podiam ser baldes de bronze como sacos de esparto, adaptados a uma estrutura de madeira que lhes dava rigidez e impermeabilizados com uma mistura de pez, sebo, resina e azeite (Viana, 1956), levando ainda no fundo um peso de chumbo que os fazia mergulhar bem na água. 

Outra técnica utilizada para a drenagem dos poços era a construção de um poço gémeo a curta distância do primeiro. Este poço descia abaixo do nível do primeiro e as águas deste eramdrenadas para o segundo, seguindo-se o afundamento do primeiro e a drenagem do segundo para o primeiro e assim sucessivamente. Vestígios desta técnica podem ser encontrados nas minas de Valongo (Porto), Sotiel Coronada (Huelva-Espanha) e Cabezas de los Pastos (Huelva-Espanha). Em Aljustrel houve recurso à técnica dos poços gémeos (Domergue, 1983: 15), contudo, osvestigíos encontrados de baldes de bronze e esparto, pás e rodos de azinho, canaletes de transporte de água também em azinho, e sarilhos de elevação que tanto podiam ter servido para o minério como para a água, levam a supôr que a técnica mais utilizada para a secagem dos poços seria através da elevação da água à força de braços. A ausência de vestigios de qualquer das outras técnicasdescritas reforça esta opinião. A utilização de uma bomba aspirante-premente, conforme referimosatrás, é uma hipótese que teremos que encarar com muitas reservas.

A água retirada era elevada para a superfície ou para a boca de canais que estavam ligadosa uma galeria especialmente construida para o efeito e que a fazia desaguar num local afastado da mina, normalmente um riacho. Esta galeria de escoamento era utilizada em todas as minas com alguma dimensão: na Serra da Caveira (Grândola) são conhecidas três galerias, uma delas com umquilómetro de extensão, em La Fortuna (Huelva-Espanha) é conhecida uma com cerca de 1800 metros de extensão e São Domingos (Mértola). Existem ainda canais deste tipo nas minas espanholas de La Concepción, Tharsis, La Zarza e Sotiel Coronado, sendo a galeria desta última forrada a esparto entrançado (Viana, 1956; Domergue, 1983: 19). Em Mazarrón (Murcia), o canal de esgoto, com 1,3 metros de largura por 2 metros de altura, situa-se a 180 metros de profundidade e prolonga-se numa extensão de 1800 metros (Ramallo Asensio, 1985). Ao longo destas galerias existiam vários poços, a espaços regulares, que a punham em contacto com a superfície e que serviam para a sua conservação e arejamento, em Mazarrón, por exemplo, existiam de 80 em 80 metros poços com 6 metros de diâmetro (Ramallo Asensio, 1985).», MARTINS, ARTUR (1996), "Aljustrel, a mina e a mineração na antiguidade", In Mineração no Baixo Alentejo, Castro Verde: Câmara Municipal de Castro Verde, p. 94-113 (link)


UMA INTRODUÇÃO AO TEMA

«No mundo antigo o metal foi adquirindo importância desde a Idade do Bronze, quando a sua importância nas sociedades de então provocou alterações económicas, que se reflectiram na individualização e na hierarquização dos grupos e que, no âmbito comercial, introduziu relações de longa distância por todo o Mediterrâneo em busca de matérias primas. A chamada expansão micénica pelo Mediterrâneo central e oriental teve a sua origem na busca incessante destas matérias-primas, e as jazidas de minério ganharam relevância, porque o seu domínio pressupunha, no limite, o controle da produção metálica.

Anteriormente, durante a Idade do Cobre (P. GÓMEZ RAMOS, Obtención de metais en la prehistoria de la Península Ibérica, B.A.R. International Series, 783, Oxford (1999)), momento em que se descobre e inicia a fundição do minério de cobre, as minas eram um recurso explorado, mas o metal, escassamente representado na utensilagem doméstica e funerária, salvo como objectos raros ou de prestigio, não havia ainda proporcionado que a economia destas sociedades se baseasse exclusivamente na produção mineira e metalúrgica. Não existem neste período verdadeiros povoados mineiros, não se vive ainda por, e para, a mineração do cobre, e os locais de povoamento situam-se afastados das minas. Os minerais são por esta altura mais uma matéria-prima, apelativa, de escasso significado prático, e os povoados relacionam-se de um modo geral com a exploração de outro tipo de recursos, agrícolas e ganadeiros, sobre os quais se sustentam as diferenças intergrupais. A utensilagem lítica continua a dominar os registos materiais, e agora, com um novo concorrente, o cobre, consegue-se um maior grau de aproveitamento e diversificação dos instrumentos líticos, machados polidos, pontas de flecha, pontas de lança e alabardas, facas sobre lâmina, e pequenos artefactos microlíticos para as foices.

Apesar da aparição dos primeiros objectos de ouro nos momentos finais deste período (a fase campaniforme), originário de terrenos aluviais, as minas não são o lugar onde se fixem estas populações, quando muito encontram-se em áreas de extracção de recursos onde em determinados períodos do ano, e de forma sazonal, se exploram essas matérias minerais das zonas mais superficiais do terreno e que permitem incrementar as relações comerciais. Não existem, por isso, povoados mineiros na Idade do Cobre, como também não existirão na Idade do Bronze apesar do maior peso que já possui a metalurgia neste momento, pois a utensilagem é essencialmente de pedra. Como referiu F. Engels, teremos que esperar pela descoberta da metalurgia do ferro para que o metal suplante definitivamente a pedra. Entretanto, o metal, de cobre primeiro, e de ouro, bronze e prata depois, era mais um adorno que uma ferramenta.

 Tal como sucedeu no final da Idade do Cobre, os momentos finais da Idade do Bronze vêm aparecer nos mercados um novo material metálico, mais duro e dúctil que os anteriores, o ferro, todavia ainda com pouca aplicação, e isto coincide com o esplendor da produção dos bronzes ternários para a industria da guerra, espadas, lanças, punhais, alabardas, capacetes, fíbulas, etc. Teremos que esperar pela Segunda Idade do Ferro para que este novo metal, sabiamente manipulado, alcance as suas quotas de importância, tanto para o fabrico de armas como para a produção de utensílios de trabalho agrícolas e industriais.

O incremento das indústrias do bronze desencadeou o arranque da mineração do cobre, e neste momento as minas convertem-se pela primeira vez em lugares de povoamento onde a população vive exclusivamente para a mineração e a metalurgia do cobre, como por exemplo no sítio de Chinflón em Zalamea la Real (Espanha), um modelo de povoamento que contrasta com os da Idade do Cobre e Bronze Pleno, que não se situam directamente sobre as jazidas minerais.

Mas a Idade do Bronze, e especialmente a sua etapa final, significou sobretudo uma internacionalização, restringida embora à esfera mediterrânica, dos contactos comerciais como consequência da necessidade de abastecimento de uma indústria do bronze cada vez mais desenvolvida (M. L. RUIZ-GALVEZ PRIEGO, La Europa Atlántica en la Idade do Bronze. Un viaje a las raíces de la Europa occidental, Barcelona (1998)). Os contactos entre ambas as margens do mediterrâneo intensificaram-se com uma ponte situada no Mediterrâneo central, na Sardenha e na Sicília, que se irão converter nos portos de contacto e comércio para onde convergem e se relacionam ambos os extremos deste mar, através do dinamismo das cidades-estado micénicas, nas quais se foram gerando os mitos do Ocidente Longínquo (Hespérides), do mediterrâneo central (Argonautas), e do Próximo Oriente (Tróia), ou seja, as fontes do estanho, do ouro, e do cobre.

O facho do comércio micénico será recolhido pelos fenícios, os quais acossados pela pressão assíria são obrigados a procurar novas fontes de aprovisionamento em metais para pagar os tributos. Esta é uma empresa pacífica, que se irá expandindo desde o Mediterrâneo oriental (Chipre), pelo Mediterrâneo central (Sardenha e Sicília), o Norte de África (Cartago) e as costas mediterrânicas (Mª. E. AUBET SENMLER, Tiro e las colonias fenicias de Occidente, Barcelona (1987)) e atlânticas ibéricas (A. M. ARRUDA, Os Fenicios en Portugal. Fenicios e mundo indígena en o centro e sur de Portugal (siglos VII-VI a.C.), Cuadernos de Arqueología Mediterránea, 5-6 (2002)). A partir deste momento os produtos fenícios estão representados em todos os registos arqueológicos da época no sudoeste ibérico, onde estes comerciantes encontraram una incipiente produção de prata e cobre na Faixa Piritosa Ibérica e o estanho e ouro nas terras do Tejo.

A procura de prata desencadeia uma mineração muito acentuada nos coutos mineiros do sudoeste, e aparecem em muitas das minas os grandes povoados da época Orientalizante (J. A. PÉREZ MACÍAS, Metalurgia extractiva prerromana en Huelva, Huelva (1996); e M. HUNT ORTIZ, Prehistoric Mining and Metallurge in South West Iberian Península, B.A.R. International Series, Oxford (2003)), como Cerro Salomón/Quebrantahuesos em Riotinto, Castrejones em Aznalcóllar, Pico do Ouro em Tharsis, e Mangancha em Aljustrel. O ritmo de produção vai aumentando progressivamente ao longo destes séculos, sempre mediatizado pelo comércio fenício. Seguindo na sua esteira, mas sem o suplantar, aparece o comércio focense a partir das suas bases no sul da Gália (Marselha) e na costa catalã (Ampurias).

Com a desvalorização da prata em finais do séc. VI a.C. e com o início das explorações industriais na zona mineira de Laurium (Ática, Grécia) e os problemas criados às cidades da costa sirio-palestina pelo imperialismo neo-babilónico, entra-se num período de crise e de reestruturação que afectou a produção mineira ocidental de forma drástica, e a maior parte dos povoados mineiros são abandonados ou ficam reduzidos a níveis demográficos mínimos, porque as colónias ocidentais apontam agora as suas miras produtivas para as indústrias de molhos e salmouras, produtos que alcançarão fama nas cidades gregas desde o séc. V a.C., uma vez que a mineração já não era uma actividade tão rentável e atractiva como anteriormente.

Desde o séc. IV a.C. que Roma, uma nova potência militar que imitou o sistema grego aristocrático superando a etapa monárquica, começa a assenhorear-se do Mediterrâneo, e ao mesmo tempo a enfrentar outra potência emergente, Cartago. Depois da primeira fase da guerra entre as duas potências, que implicou para Cartago a perda das suas bases sicilianas e sardas, a sua atenção dirige-se agora para a Península Ibérica, que podia ressarcir estas baixas e permitir o pagamento dos tributos de guerra impostos por Roma. A política dos Bárcidas pretende um controle militar do território (Amílcar) e continua posteriormente com Asdrúbal uma política de novas fundações (Cartagena) e pactos (Aníbal), para controlar os ricos distritos mineiros hispânicos, as regiões do Sudeste (Carthago Nova) e o Alto Guadalquivir (Castulo). A produção mineira (prata, cobre e ferro) volta a desempenhar um papel fundamental na nova luta que se avizinhava, uma vez que estes metais eram necessários para o pagamento a mercenários e para a indústria de armamento.

Durante a fase de guerra, enquanto Aníbal mantém inoperantes os exércitos consulares na própria Itália, o senado romano entendeu perfeitamente que deveria cortar os fornecimentos que chegavam de Hispania, e isso originou o desembarque das primeiras tropas romanas na Península Ibérica (Emporiae) no ano 212 a.C., data em que se inicia uma conquista territorial que só irá terminar dois séculos depois, em 19 a.C. Com a entrada de Roma no cenário hispânico (C. DOMERGUE, Les mines de la Peninsule Ibérique dans l’antiquité romaine, Collection de l’École Française de Roma, 127, Roma (1990)), inicia-se a colonização e exploração do território peninsular, ainda antes de concluída a sua conquista. As riquezas do solo e do subsolo da Península Ibérica desencadearão a voracidade dos generais, dos governadores, e dos imigrantes itálicos, que desde inícios do séc. II a.C. irão encetar um novo ressurgimento da mineração ibérica que, por caminhos distintos, irá encher as arcas do Aerarium Saturni.

A princípio, a exploração romana seguiu as pisadas da época dos bárcidas, e concentrou-se nos distritos mineiros de Cástulo e Cartagena Contudo, à medida que avança o séc. II a.C. e a Hispania é dividida em duas províncias, a Ulterior e a Citerior, as zonas mineiras serão uma das preferências das societates itálicas que, arrendando ao senado e povo de Roma os direitos de exploração, obtêm enormes lucros nessas minas de prata e chumbo. Rapidamente estas sociedades estendem o seu raio de acção para as minas de cobre da Serra Morena, explorando-as de forma sistemática. Para além do cobre e da prata, estas companhias de cidadãos exploram também o cinábrio (mercúrio) de Almadén e as jazidas de chumbo e cobre da zona de Pedroches e todo o conjunto de minas que se encontravam integradas no território adscrito à capital da Ulterior, Corduba. Não consta que os coutos mineiros do sudoeste peninsular, onde se teria concentrado a maior parte da exploração do período Orientalizante, merecessem a atenção destas sociedades republicanas, ainda que algumas minas, como as de Riotinto, apresentem níveis de exploração destes séculos.

Quando os confrontos das Guerras Civis da primeira metade do séc. I a.C. se estendem a Hispania, as partes em conflito tentam assegurar o controle das zonas mineiras e, perante o clima de insegurança existente, o capitalismo itálico abandona as explorações para centrar os seus investimentos nos ricos territórios do Guadalquivir.

Terminadas as guerras civis com o triunfo final de Octaviano, inaugura-se uma nova política, um novo regime, o Principado. Este regime necessita urgentemente de dinheiro, mais metal, e com o suporte do exército (Agripa) e do capital (Mecenas), a pouco e pouco foi estendendo os trabalhos mineiros a todas as áreas conhecidas, as minas do sudoeste peninsular, e incorpora outras para exploração directa, como as minas de ouro do noroeste peninsular. Nos seus primórdios, esta nova etapa não implicou grandes mudanças em relação às sociedades republicanas, salvo o controle protagonizado pelo exército e a exploração sistemática de todos os coutos mineiros, sendo que na maioria dos casos a mineração continuou através de empresas particulares de publicani e societates. De um ponto de vista económico, a mudança mais significativa verificou-se no abandono de alguns distritos mineiros, como o de Cástulo, e o inicio da exploração sistemática das minas do sudoeste e noroeste hispânico, em muitas das quais os registos arqueológicos começam na época de Augusto.

As mudanças e reformas monetárias realizadas por Augusto tiveram também uma influência directa nessa política mineira, que desde essa altura, e em especial com os imperadores júlio-cláudios, converteram as minas de prata e ouro de empresas particulares, em domínios imperiais (agri excepti) exploradas por intermédio do exército (prefeitos) ou libertos imperiais (procuradores). Desde o principado de Tibério que este interesse imperial se estende às minas de cobre, que também caíram definitivamente nas mãos do império, ainda que estivessem situadas em terrenos públicos, cuja tutela correspondia ao Senado. Deste modo, no decurso da primeira metade do séc. I d.C. as minas alteraram o regime jurídico de exploração e os impostos e taxas pagas já não seguiam para o Erarium, mas para o Fiscus, a Caixa Imperial.

Na época flávia todas as minas passaram a ser administradas por funcionários imperiais (procuratores metallorum), magistraturas exercidas na maior parte dos casos por libertos imperiais, que leiloavam as explorações e as exportações a particulares (comductores), submetidos à vigilância dos procuradores, que cancelam as concessões quando estas não se encontram a ser exploradas. O melhor documento que nos informa sobre a regulamentação mineira na época imperial são as tábuas de bronze, encontradas nos escoriais romanos das minas de Aljustrel (Vipasca I e Vipasca II)(C. DOMERGUE, La mine antique d’Aljustrel (Portugal) et les Tables de Bronze de Vipasca, Paris (1983)), datadas da época de Adriano e consideradas como parte de uma lex metalli dicta. De acordo com este importante documento epigráfico os povoados mineiros dessa altura vivem alheios à vida municipal, que se terá estendido pela maior parte dos territórios hispânicos e careciam de órgãos de governo próprios (vicus), ainda que o seu desenvolvimento urbanístico venha mesmo a superar o de algumas coloniae romanas. Possuíam os serviços indispensáveis para a vida das comunidades: médicos, escolas, barbearias, banhos públicos, edifícios monumentais para o culto imperial, e mesmo um pequeno destacamento militar para as funções de polícia. A autoridade máxima era o representante imperial (procurator metallorum), liberto imperial, especialista em mineração e que geralmente não residia nas minas, mas na capital provincial, auxiliado em cada mina por um funcionário imperial de menor estatuto (vicarius).

O apogeu mineiro é facilmente encontrado através da análise da quantidade de escórias que se foram acumulando em todas as minas, nas extensas necrópoles e povoados, e na envergadura dos trabalhos mineiros desenvolvidos, muitos dos quais se encontravam a céu aberto durante a exploração contemporânea destas minas, poços, galerias, cortas, engenhos de esgoto, entivações, instrumentos mineiros, etc. Esta produção metálica alcançou o seu zénite produtivo em meados do séc. II d.C. Depois de M. Aurélio, fizeram-se sentir os primeiros sintomas de crise económica, o abandono das explorações e a diminuição drástica dos níveis de extracção. Há investigadores que relacionaram estas quebras de produção com a instabilidade da época, com as incursões dos Mauri do Norte de África e com a crise generalizada do sistema económico romano, que levou, em última instância, à descapitalização das concessões e ainda a que as minas se tornassem coutos de exploração imperial, no fundo, a mineração continuava a ser efectuada por uma empresa privada que se sustentava no arrendamento dos direitos de exploração.

Assim, no séc. III d.C., devido à decadência do governo imperial, do qual dependia directamente, a mineração passou a ser uma actividade de segunda ordem, uma actividade marginal. A continua sucessão de imperadores durante o período da Anarquia Militar não era com certeza o melhor clima para a continuação de uma actividade, que dependia directamente do imperador e dos seus procuradores. E se o poder imperial mudava constantemente de mãos, não havia tempo nem preocupação, para que os serviços e os funcionários imperiais pudessem dedicar-se à correcta administração das minas, assegurando o abastecimento e controlando as explorações. Assim, o capital foi direccionado para outros sectores produtivos, como a agricultura e as pescas, ainda não sujeitas à rapina dos funcionários imperiais e onde os investimentos eram mais rentáveis e mais estáveis.

Quando o poder imperial volta a recuperar o poder que possuía nos sécs. I e II d.C., a mineração vai recuperando os seus níveis de produção e os povoados mineiros revitalizam-se demograficamente. Isto foi possível depois das reformas políticas de Diocleciano e, fundamentalmente, durante a dinastia Constantiniana, em que Roma recupera o poder económico.

Nos sécs. IV e inicio do séc. V d.C. muitas minas vivem um novo período de esplendor, contudo, à medida que o séc. V d.C. vai avançando, voltam a verificar-se os mesmos sintomas de paralisia económica já referenciados no séc. III d.C., e os registos arqueológicos vão emudecendo lentamente, até desaparecerem definitivamente no séc. VI d.C., em época visigoda.

Estes períodos de crise generalizados no sistema político e económico romano, não faziam supor o despovoamento total dos coutos mineiros, tendo-se mantido pequenos grupos de mineiros e metalúrgicos dedicados à produção de metal. Desta mineração dos sécs. III e V d.C. existem algumas evidências, pouco numerosas, mas que apontam para a continuidade das explorações.

De igual modo se deve entender a mineração ao longo dos sécs. VI e VII d.C., como uma actividade marginal destinada ao autoconsumo. Os vestígios deste momento nas minas são muito raros, contudo, alguns deles permitem entrever uma continuidade dos trabalhos, desconhecendo-se sob que fórmula jurídica e com que sistemas de extracção. Perante a falta de um poder central e de uma política financeira desenvolvida, é plausível imaginar um sistema de produção de tipo doméstico, sem intervenção directa do aparelho do estado. Nestas circunstâncias era arriscado desenvolver trabalhos em profundidade, que requeriam uma capacidade de engenharia e uns sistemas de escoamento de águas que tornam imprescindível a participação de capital. Em consequência, os trabalhos de extracção tiveram que se manter nas zonas mais superficiais, na zona de oxidação, uma vez que o minério da zona de cementação, o mais rico do ponto de vista da produção de prata e cobre, requeria um trabalho a maiores profundidades. Por isso mesmo, em nenhuma mina peninsular foram encontradas evidências metalúrgicas de tratamento de minerais de prata e cobre, cujo abastecimento se podia efectuar apenas por refundição dos objectos de época romana, mas apenas evidências de escoriais de ferro, de tratamento dos óxidos e hidróxidos das camadas oxidadas das jazidas, de fácil manuseamento. Esta importância da siderurgia nos alvores da Idade Média vai catapultar a crescente tecnologia do ferro e os seus tratamentos e alcançará, ao longo da Idade Média, os melhores resultados com o ferro índio ou alfange (J. VALLVÉ BERMEJO, “La industria en al-Andalus”, Al-Qant8ara, 1 (1980), 209 ss.).

Por esse facto se considerou, tradicionalmente, que durante o período islâmico as minas da Península Ibérica se mantiveram inactivas. As suas diferenças com as quotas de produção alcançadas no período romano imperial são evidentes. No entanto, as fontes documentais árabes e a arqueologia estão a alterar esta opinião. As fontes árabes descrevem-nos os diversos metais e os seus lugares de recolha, alguns deles apresentando uma toponímia fossilizada no termo Almadén ou Almada (mina). A arqueologia tem vindo a documentar uma série de sítios, tanto nas próprias minas como relativamente afastados delas, em que os escoriais demonstram inequivocamente a sua origem metalúrgica. Como já referimos sobre a mineração do período visigodo, as diferenças em relação aos altos níveis de produção da época romana têm a ver com um sistema de produção menos industrial, mais familiar, e que se concentra nas camadas oxidadas superficiais para a produção de ferro, muito mais desenvolvida e disseminada que a que teve lugar em época romana. Existe, contudo, muito pouca informação arqueológica das zonas de extracção de minério de prata e cobre, reduzidas a alguns testemunhos das minas da província de Córdoba (Mirabuenos). Os sistemas de extracção continuam uma tipologia técnica já conhecida no período romano, o que torna muitas vezes difícil distingui-la, sugerindo uma continuidade da engenharia mineira com poços circulares ou quadrangulares de 1 m de lado, pequenas galerias de exploração com lucernários nas paredes, e covas que indicam os locais de extracção. Estes trabalhos seriam considerados romanos se não tivessem sido recolhidos nestes locais candis do período islâmico, ou porque os silos encontrados em zonas de povoamento utilizam o mesmo tipo de escavação interior que o verificado nas minas. Não será por isso estranho que muitos trabalhos mineiros considerados como romanos correspondam na realidade ao período medieval.

Um panorama de carências semelhantes é o que apresenta a mineração da baixa idade média cristã, momento em que o ferro foi o metal de maior procura e em que as escórias de ferro, os escoriais e as forjas estão representados nas vilas, castelos e nas localidades rurais. As viagens transoceânicas de portugueses e espanhóis em finais do séc. XV e o incremento do tráfico comercial marítimo com as colónias americanas, produziu uma tal procura de ferro para os barcos (pregos, ferragens, canhões, aros para tonéis e pipas, etc.) e para as novas povoações americanas, que provocou uma enorme carestia deste metal e, ao mesmo tempo, provocou uma grande febre mineira na época dos Àustrias em Espanha e de D. Manuel I em Portugal. Momento em que a maioria das minas voltaram a ser exploradas, ocorrendo ao mesmo tempo uma enorme produção clandestina, de contrabando, que deixou muitos escoriais anónimos no caminho dos portos fluviais e marítimos, e que a investigação arqueometalúrgica centrada exclusivamente nos escoriais das minas, ainda não valorizou de forma adequada.(...)», PÉREZ MACIAS, JUAN AURELIO (Universidade de Huelva) e MARTINS, ARTUR (Museu Municipal de Aljustrel), Vipasca: Projeto de Investigação Arqueológica, 2006-2008, pp. 8 a 13 (fonte - pdf)