ANTIGUIDADE PRÉ-ROMANA
O setor mineiro e metalurgico foi um dos "motores" económicos mais antigos da Península Ibérica, sendo certamente a primeira atividade a dar azo a um verdadeiro comércio internacional e uma ligação privilegiada com o mundo mediterrânico. Sociedades proto-históricas como a cultura de El Argar, que prosperou por cerca de mil anos no sudoeste ibérico (costa mediterrânica) durante a Idade do Bronze, de meados do 3º milénio a meados do 2º milénio a. C., ou, anteriormente, culturas calcolíticas como a de Los Millares ou a de Vila Nova de S. Pedro (VNSP), dominavam já complexas técnicas metalurgicas, sobretudo na área da joalheria.
Mas a prática mineira e metalurgica na Península Ibérica é muito anterior, e ao que tudo indica, contemporânea de outros locais tradicionalmente apontados como pioneiros no trabalho dos metais, como o Médio Oriente ou a Europa Central (por ex., a cultura de Vinca, na presente Sérvia).
De facto, muito antes disso, já os povos nómadas e os primeiros agricultores do neolítico ibérico conheciam e trabalhavam certamente o chumbo ou o ouro, também para efeitos decorativos e ornamentais, visto não terem dureza suficiente para serem matéria prima de utensílios ou armas. O estanho e a prata, outros metais que surgem em abundância em diversas regiões ibéricas, foram também trabalhados desde épocas remotas.
É assim que, durante muitos séculos após a entrada em cena das técnicas metalurgicas, estes não tenham simplesmente substituído os utensílios de pedra no quotidiano prático das sociedades antigas, dando-se uma convivência de materiais para determinadas funções, numa altura em que a indústria lítica atingia o seu auge de sofisticação. Seria preciso esperar pela revolução de ligas como o bronze (cobre+estanho), e sobretudo do ferro, no primeiro milénio a. C., e pelo progresso nas tecnologias de mineração e metalurgia mais complexas, para os metais "vencerem" definitivamente as rochas no campeonato tecnológico, assumindo um papel de charneira no desenvolvimento das sociedades urbanas e na ascensão dos primeiros grandes impérios e das trocas comerciais de longo alcance.
Os vestígios mais antigos de metalurgia ibérica, no entanto, surgiram na zona de Almeria, no sítio de Cerro Virtud, precisamente a zona de influência da referida cultura Argárica, e datam da primeira metade do quinto milénio (1).
À luz dos últimos desenvolvimentos arqueológicos, podemos então afirmar que a Península Ibérica é um dos berços mundiais da metalurgia. Além, naturalmente, de constituir uma das principais fontes de recursos minerais de todas as grandes civilizações mediterrânicas da Antiguidade. Regiões como a Faixa Piritosa (sudoeste, abarcando as atuais regiões do Alentejo e Andaluzia), rica em prata ou cobre, ou o noroeste galaico-português, rico em metais como o estanho o ouro, foram intensamente exploradas pelo menos desde o calcolítico, mas sobretudo no primeiro Milénio, na primeira metade com a civilização Tartéssia, no sudoeste ibérico e com a chegada dos Fenícios, que desde muito cedo procuraram novas fontes de metais em paragens tão distantes como as míticas ilhas Cassitérides (provavelmente a sudoeste do atual Reino Unido ou na zona da Cornualha, havendo autores que consideram a costa Galega ou mesmo os Açores), expressão grega para "Ilhas do Estanho"(2); e na segunda metade principalmente sob o impulso de potências estrangeiras como os Cartagineses e, enfim, os Romanos.
Dada a riqueza mineralógica dessas terras, e a forte procura de populações autóctones ou forasteiras, a antiguidade metalúrgica ibérica é marcada pela existência de centenas, senão milhares, de sítios onde se extraía ou trabalhavam os minérios, sítios quase todos de carácter artesanal, produções de pequena escala, fundições domésticas e trabalhos decorativos a frio, quando os metais eram mais "moles". É, assim, que a generalidade dos castros proto-históricos ainda hoje apresentam vestígios de atividade metálica, sendo certo que os metais rapidamente se tornaram indispensáveis, sobretudo quando adquiriam valor de troca com povos estrangeiros que os procuravam avidamente e que introduziram novas técnicas e práticas.
E esse é também um dos primeiros problemas com que nos confrontámos para a elaboração deste trabalho, pois fazer o levantamento exaustivo de todos os locais antigos onde estivesse presente trabalho metalúrgico será tarefa épica não ao alcance da ambição deste trabalho - um dos catálogos mais relevantes de sítios mineiros na Península Ibérica, promovido pelo projeto espanhol MTI Blog - Mineralogía Topográfica Ibérica, regista mais de seis mil minas e jazidas, o que dá uma ideia da riqueza já referida. Fiquemo-nos, assim, pelos mais relevantes e por uma descrição geral do panorama na Antiguidade.

(1) «Rescue excavations in 1994 at Cerro Virtud (Almeria, Spain), a site dated to the first half of the 5th millennium BC, have provided the oldest evidence for metallurgy in western Europe. This date is more than a millennium older than had previously been attested. The sole evidence consists of a sherd of an ordinary openmouthed ceramic vessel that was used to smelt copper. The sherd has a layer of slag on its inner surface. This discovery is not only important because of its date but also because of its cultural context. The study of the site and the surrounding region shows that the beginning of metallurgy is associated with the consolidation of mixed farming. Thus, metallurgical production begins during the process of Neolithicization in Iberia in an egalitarian social context showing no traces of hierarchical differences. Cerro Virtud revitalizes the traditional debate about metallurgy as a factor in social change and strengthens the hypothesis that it developed independently and autonomously in the Iberian Peninsula.» (Ruiz-Taboada e Montero Ruiz, 1999: 897) (fonte - pdf)
(2) «As Cassitérides são dez em número e situam-se próximas umas das outras, distantes para norte no Oceano ao largo do porto do Ártabro (em latim: Portus Magnus Artabrorum, referência a Brigantium, no noroeste galego, hoje A Coruña). Uma das ilhas é desabitada, sendo as restantes povoadas por gente que veste mantos negros sobre túnicas cintadas, que se alongam até aos seus pés, e caminha apoiada em longos cajados, de forma que parecem personificações das Erínias das tragédias representadas nos nossos teatros. A maioria vive como pastores, cuidando dos seus rebanhos. Mas também exploram minas, das quais extraem estanho e chumbo, que os mercadores adquirem em troca de couros, cerâmicas, sal e vasos de cobre. Muito antes da nossa época, os fenícios eram os únicos que negociavam com eles, mantendo secretas as rotas que conduzem àquelas ilhas», Estrabão, Geografia, Livro III, Capítulo 5, 11
Fontes
Ruiz-Taboada, Arturo e Montero-Ruiz, Ignacio (1999), "The oldest metallurgy in western Europe", Antiquity nº 73, pp. 897-903.
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