antiguidade romana

 No final das Guerras Púnicas, a República romana encontrou-se com um vasto território sob o seu domínio. Com o alargamento considerável das fronteiras para o Norte de África e para a Península Ibérica, o exército romano transformou-se num verdadeiro colosso devorador de aurum e argentum (usados para pagamento do soldo) ou de ferro para o armamento. As ricas jazidas peninsulares de ouro, prata, ferro, estanho, cobre, chumbo ou mesmo de rochas como o mármore, constituíram não só um balão de oxigénio para a nação romana exaurida pelas longas campanhas contra Cartago, como impulsionaram decisivamente o seu poderio no sentido da construção e consolidação do poderio colonial romano em todo o mundo mediterrânico.

Segundo Plinio (Martins, 2008: 70), na primeira metade do Século I d. C., as minas («arrugias») da Hispânia, vastos complexos como o de Las Médulas, no noroeste ibérico, produziam anualmente 20000 libras de ouro e, antes de Trajano conquistar a Dácia - outra zona mineira abundante, ocupada entre 101-106 d. C. - seriam o principal combustível da expansão da República e, mais tarde, do Império, financiando o esforço de guerra, a manutenção de um exército cada vez mais numeroso e uma máquina administrativa de dimensão pluricontinental.

«É com o Império, nos séculos I e II d.C., que se dá o apogeu da exploração mineira em todaa região penínsular. A necessidade de ouro e prata para pagar às legiões e cobrir défice comercialcrónico, que se agravou no séc. II, fez com que se intensificasse ainda mais a procura de metais. Plutarco (Cat. 10; Front. 4, 7, 35) refere que os recursos mineiros da Hispânia eram suficientes para cobrir todas as suas despesas com o exército e Diodoro (V, 36-38) afirma que quando os Romanos se apoderaram da Ibéria, Itálicos em grande número exploravam as minas obtendo riquezas imensas (Apud, Luzón, 1970). Segundo Plínio, o ouro do noroeste peninsular proporcionou ao erário romano no, séc. I d.C., a quantia de 20.000 libras romanas por ano, cerca de 6,5 toneladas/ano (Garcia Bellido, 1970). Os autores clássicos, no entanto, dão pouca importância às explorações mineiras existentes na faixa piritosa do sudoeste peninsular, talvez porque a maior cobiça se centrava nas ricas minas de ouro do noroeste e Astúrias, que levaram ao estabelecimento permanente de uma legião (Legio VII Gemina) e de uma cohors (Cohors I Gallica), na região da actual província de León, com destacamentos em diversas minas como é o caso de Jales e Tresminas, em Trás-os-Montes. A função destes legionários não seria apenas para protecção dos interesses do Estado contra eventuais levantamentos das populações que ai trabalhavam mas também, para proporcionar apoio técnico nas diversas formas de exploração ai existentes. A partir do século III a mineração entra em decadência, embora algumas minas continuem ainda a produzir durante o século IV.» (Martins, 1996)

A mentalidade romana, conhecida pela sua perseverança, grande capacidade de coordenação de esforços e empreendedorismo, sempre em busca do máximo de produtividade e eficiência, munida com diversas inovaçõs de caráter técnico, como por exemplo a utilização da força das águas ou dos ácidos sobre as rochas (Domergue, 1990: 413-417), permitiu a exploração mineira a uma escala industrial sem quaisquer precedentes, com um poder que, literalmente, movia montanhas.

A isto acresce o acesso a recursos humanos literalmente inesgotáveis, seja de escravos oriundos dos quatro cantos do Império, seja de mineiros e trabalhadores metalurgicos locais assalariados. Sendo aquele o cenário em termos geopolíticos, em termos técnicos, a exploração mineira romana fazia-se sobretudo de duas principais formas: em profundidade, que seria a mais dispendiosa e perigosa, e a céu aberto, muito mais comum do que a anterior.

As minas em profundidade são o exemplo perfeito da superioridade tecnológica no que toca a engenharia de minas dos romanos sobre os seus predecessores no território. Para poderem alcançar grandes profundidades, chegando a atingir a marca dos 340 metros, os romanos além de escorarem as minas com grande competência, para evitar desabamentos, faziam uso de inovadores engenhos e bombas de extração de água (imagem em baixo), que chegariam a extrair cerca de 7.200L/h (Domergue, 1990: 458, 459).

Quanto à ventilação das galerias, existiam dois sistemas principais: «O primeiro consistia em colocar uma divisória de alto a baixo do poço de modo a dividi-lo em duas partes iguais; a divisória era perfurada na parte inferior de modo a traçar dois braços de um sifão, sendo fácil de alongar uma das suas extremidades por uma chaminé suplementar. Um outro sistema era feito através dos poços gémeos, como os existentes nas minas de Sta. Justa e Pias e Caveira, cuja parede do meio era perfurada em alturas convenientes e quando se fizesse fogo num dos poços, o ar quente subia e do poço vizinho viria ar frio». (Martins, 2008:61). Por último, a iluminação era maioritariamente garantida com recurso a pequenas lucernas de óleo, dispostas em orifícios escavados na parede, para que a sua fraca luz permitisse os duros trabalhos de extração manual, com recurso a picaretas e outras ferramentas similares.

 A exploração a céu aberto, por seu turno, era feita por extração em fossa ou em terreno de aluvião, nas quais a água era um fator preponderante na exposição dos minérios. Eram construídos extensos aquedutos, que permitiam lançar fortes torrentes de água de modo a "limpar" o solo, dando acessibilidade aos filões que se encontravam a baixa profundidade, tendo como exemplo Tresminas (norte de Portugal, distrito de Vila Real), ou facilitando a remoção e separação dos sedimentos, entre os quais estariam os fragmentos metalíferos, nas zonas de aluvião como a bacia do Tejo, do Douro e do Minho.

Podemos concluir, portanto, que sem a conquista da Península Ibérica e dos seus vastos recursos minerais, ou sem as técnicas inovadoras que permitiram a sua exploração de modo exaustivo, alterando até profundamente a geografia das zonas mineiras, Roma provavelmente nunca teria atingido a dimensão, influência e longevidade que fizeram dela um dos mais extensos e duradouros impérios de que há memória. Como tinha acontecido nos milénios precedentes, em que tinha alimentando com os seus recursos naturais o esplendor e a grandeza de civilizações mesopotâmicas, norte-africanas ou helénicas, a Península Ibérica constituiu também a base da grandeza romana.